quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Entrevista: Envolvimento Parental no Ensino da Música

Tirza vogel, aluna do primeiro semestre do curso de Mestrado em Ensino da Música
Academia Nacional Superior de Orquestra
2011/2012
Disciplina: Psicopedagogia aplicada ao Ensino da Música
Docente: Luzia Rocha
Nazaré Miguel Pereira e Sandra Maria de Sousa Pereira 
(Missionários da MEVIC- Missão Evangélica Inter-Cultural)

1. Como líderes do projeto "Música que transforma" com a sua escola de música Tehillah- cântico de louvor qual a vossa experiência com o envolvimento dos pais e das famílias dos alunos?
Miguel e Sandra: Por morarmos na comunidade (há cerca de 10 anos) onde está inserido o projecto, apercebemo-nos que os pais e familiares dos alunos não tinham conhecimento algum sobre música clássica e seus instrumentos. O incentivo desses pais no envolvimento dos alunos no projecto baseou-se na confiança que lhes procuramos transmitir ao longo desses anos de convivência, desenvolvendo, também, um projeto na área da educação pré-escolar.
Apercebemo-nos também, que os alunos tinham uma enorme carência afectiva e  no projecto procuramos que os professores tenham um relacionamento de amizade sadio com os alunos; saber ouvi-los; ter tempo de lazer juntos; procurar saber como vivem em seus lares; conhecer seus pais; suas crenças religiosas; seus sonhos, etc.
Por exemplo, o Eduardo, vive num contexto familiar totalmente desajustado. Na escola, era um aluno hiperactivo. Ao ingressar na Escola de Música, envolveu-se no ambiente harmonioso e amoroso proporcionado pelo professor. Com isso, temos visto um excelente desempenho no violino e também no seu comportamento moral e social que tem vindo a melhorar.

2. Sendo o projeto de caráter social, qual a importância pedagógica do envolvimento dos pais no processo de aprendizagem musical os alunos?
Miguel e Sandra: Entendemos que os pais, nesse processo, devem incentivar seus filhos a investir o seu tempo na música, devem mostrar interesse, mesmo quando parece não haver progresso dos filhos. Se o projecto não tem custo para os pais, esses devem aproveitar a oportunidade. Devem, também, conhecer e procurar se relacionar com os professores.

3.  Quais são as dificuldades que têm encontrado neste aspecto, no contexto social específico da área envolvente ao projeto?
Miguel e Sandra: Ao se abrirem as portas a um projecto deste tipo, correm-se alguns riscos. Por exemplo, a sua vida se torna pública, perde-se um pouco da privacidade. As enormes carências deste contexto social (afectiva, educacional, alimentar, etc.), tornam a Escola de Música num local de muita frequência, onde os pais não se importam com o tempo que os filhos estão fora de casa, devido à confiança que depositaram em nós e, os alunos sempre têm o que fazer, envolvendo-se na música, lazer, etc. Precisaríamos de mais pessoas envolvidas no projecto.
Uma outra dificuldade é levar os pais a compreender a importância de se fazerem presentes nos concertos promovidos pela Escola de Música.

4. Como pais de quatro alunos de música, qual tem sido a vossa experiência no acompanhamento dos estudos musicais dos vossos filhos?
Miguel e Sandra: Tem sido uma ótima experiência, onde os momentos de “ruído”, rapidamente se transformam em música harmônica. Tem sido importante para eles e para nós, acompanhar o desenvolvimento gradual, aplaudir cada avanço, abraçá-los quando estão em baixo, incentivá-los a cumprirem fielmente o tempo de ensaio, etc. Com esse envolvimento a família sai ganhando, os laços ficam mais fortes e, eles tornam-se mais responsáveis. Quanto ao futuro dos nossos “artistas”, está nas mãos de Deus. Os desafios são muitos, mas procuramos viver um dia de cada vez, dialogando e entregando as ansiedades a Deus. ELE sabe o que é melhor para os nossos filhos. De uma coisa estamos certos, a música sempre fará parte de nós!

5. Quais foram as maiores dificuldades, preocupações, desafios e surpresas ao longo deste tempo de aprendizagem e estudo musical em vossa casa?
Miguel e Sandra: No nosso caso, por morarmos na zona rural, a cerca de 50 km da cidade, a iniciação musical foi mais difícil. Foi muito complicado conciliar os horários das aulas de música com os outros horários devido à enorme distância de um lugar para o outro. A aquisição dos instrumentos também exigiu muito sacrifício devido ao seu preço elevado. A parte mais gratificante tem sido a surpresa de ver talentos adormecidos, sendo despertados lentamente, de forma harmoniosa e cativante para toda a família.
Como missionários, plantadores de igreja, sentimos, também, a necessidade de juntar instrumentos musicais ao canto. E, assim, o projecto musical começou a ganhar forma, primeiro na família, estendendo-se depois à comunidade. Junta-se a isso, a profunda admiração por música clássica.

6. De que forma os professores de música apoiaram esse processo? Em que aspetos gostavam de ter tido mais ajuda e colaboração da parte dos professores de instrumento? Têm alguma sugestão para um trabalho eficaz de equipa neste "trio" pais-alunos-professor/escola de música?
Miguel e Sandra: Os professores de música dos nossos filhos (na capital) não serviram de grande apoio devido ao pouco tempo despendido, e também ao pouco investimento nessa área por parte dos governantes.
Entendemos que deve haver um relacionamento de amizade entre esse “trio”, onde o aluno tenha liberdade para expor suas dificuldades ao professor e este saiba observar onde estão as reais dificuldades do aluno e consiga comunicar-se também com os pais, visando motivar o aluno. O aluno precisa encontrar no professor e na família, modelos de liderança que saibam orientá-los a superarem os obstáculos presentes (por exemplo, a insegurança, a baixa auto-estima, a soberba/orgulho, o isolamento, etc.)

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