domingo, 15 de janeiro de 2012

A música na Bíblia e a tradição musical hebraica                
Excerto do trabalho realizado por 
Bárbara Neto e Tomás Costa
da disciplina de História da Música, leccionada 
pelo Prof. Doutor Rui Cabral Lopes
na Academia Nacional Superior de Orquestra



Na Bíblia há uma evidente presença de canções populares aparte dos salmos e cânticos cuidadosamente construídos. Algumas são aclamações populares, como "amem", "aleluia", "hossana", que eram cantadas no Templo. Outros exemplos encontram-se nos versículos Salmos 21 17-18; Reis 1 12:16, ou Jeremias 9:19-20. Muitas destas canções possuem um número igual de sílabas em cada meio-verso, e podem ter sido cantadas em ritmo de acordo com as acentuações do texto hebraico. Um bom exemplo é o enigma de Sansão (Juízes 13:14). Do comedor saiu comida... (no original em Hebraico, 3 acentos, 8 sílabas) ...e do forte saiu doçura. (3 acentos, 7 sílabas).

A Salmodia no Templo

Segundo o Talmude a salmodia simples, exemplificada em Êxodo 15, era usada para os três festivais de peregrinação da Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos, um canto de louvor mais exuberante (melismático) (halila), era usado para os grandes feriado, a salmodia silábica era considerada apropriada para o estudo da Lei e para orações simples individuais e cada tipo de melodia possui um "temperamento" (taam) e altura (hagba qol) próprios, que devem ser respeitados.

Os Salmos
De acordo com a teoria moderna, os salmistas eram poetas-músicos profissionais do Templo. Nos salmos, assim como em toda a antiga poesia semítica, cada verso é dividido em duas partes que se ecoam uma à outra, em rimas de pensamento, num mecanismo conhecido como "parallelismus membrorum". Esta estrutura sugere um cântico em antifonia, ou responsorial, podendo-se distinguir quatro tipos principais: salmodia plana (salmo 46), salmodia responsorial (salmo 67), salmodia antifonal (salmo 102: 20-22) e litanias com refrões (salmo 80, com refrão nos versos 3, 7, 19). Estas estruturas eram recorrentes nos serviços do Templo e sinagoga e, mais tarde, na igreja Cristã. Aparte os salmos, há um número de hinos bíblicos (heróicos ou de louvor) que possuem a mesma estrutura dos salmos. Estes foram retirados das Escrituras ainda antes do cânon do Antigo Testamento ter sido estabelecido. Exemplo são a canção de Débora (Juízes 5), a canção de travessia do Mar Vermelho (Êxodo 15, 1-18) e a Canção de Moisés (Deuteronómio 22. 1-43).
A salmodia antifonal de versos alternados entre dois coros era rematada por uma conclusão chamada Odeka, que consistia na repetição dos mesmos versos. Esta estrutura era utilizada pelo menos deste o século terceiro.

A improvisação no Templo
A improvisação parece não ter desempenhado um papel importante na música vocal do Templo, apesar da sua estrutura musical ser polirítmica. Pouco canto a solo era praticado; o treino rígido dos levitas, conforme descrito por Josefo e fontes rabínicas (cinco anos de aprendizagem precedendo a admissão no coro) deixava pouco espaço para a improvisação espontânea, tendo ainda em conta que grandes salmos e cânticos não poderiam ser cantados em conjunto sem muita repetição musical. Neste aspecto, a música do templo deve ter sido bastante atípica em relação à música do Oriente Médio, na qual a improvisação é geralmente indispensável.

A estrutura da melodia no Templo
A estrutura da melodia do Templo aparenta uma construção sobre tetracordes, e não, como se chegou a assumir, pentatónica; os elementos pentatónicos nos cantos das sinagogas, presentes somente nas orações diárias, as quais foram simplificadas através de séculos de repetição, resultaram da eliminação de notas das antigas melodias de tetracordes. A estrutura melódica era, muito provavelmente, modal.

O acompanhamento instrumental no Templo
O acompanhamento instrumental era provavelmente heterofónico — isto é, meramente duplicando a linha melódica com a possibilidade de alguns embelezamentos melismáticos. Os instrumentos interpretavam partes independentes somente para sinalização: o sacrifício matinal e a prostração dos adoradores eram acompanhados por clamores de trompetes, enquanto os címbalos marcavam o início do canto dos levitas.


A Música nas Sinagogas

A Origem das Sinagogas

A herança natural da salmodia levítica do Templo constituiu o núcleo ao redor do qual o canto da sinagoga se desenvolveu.
A sinagoga, enquanto instituição permanente, tem provavelmente origem no período do cativeiro Babilónico, quando se tornou necessário ter um lugar para adoração e instrução comum no exílio. Após o regresso do Cativeiro, quando a vida religiosa foi reorganizada, especialmente sob a jurisdição de Esdras e seus sucessores, a adoração congregacional, constituída por orações e leituras de secções da Bíblia, desenvolveu-se lado a lado com o reavivamento do culto do Templo em Jerusalém, o que levou à construção de sinagogas.
A sinagoga estava nas mãos dos rabis fariseus, funcionando de maneira mais democrática do que hierárquica, independente de líderes hereditários (saduceus, responsáveis pelo culto no Templo). Não dispunha de qualquer culto sacrificial. Os serviços do Templo eram primariamente acções sagradas, com o sacrifício como principal (ainda que não único) constituinte da adoração. Os serviços na sinagoga, por outro lado, eram dedicados principalmente à récita dos textos sagrados, sendo esta centrada na recitação pública do Pentateuco e outras secções do Antigo Testamento, de maneira ordenada.

A Música Instrumental nas Sinagogas

A música mais antiga praticada na sinagoga foi fundada sobre o mesmo sistema e método prevalecente na orquestra do próprio Templo. Joshua ben Hananiah, que serviu no santuário como membro do coro levítico, disse como os coristas iam em conjunto para a sinagoga vindos da orquestra sob o altar, e assim participavam nos dois serviços. No entanto, após a destruição do Templo, toda a música instrumental, aparte o toque do Shofar, foi excluída do serviço religioso, por um lado devido à hostilidade dos fariseus a tal música, e por outro lado devido ao luto pela terra e pelo Templo destruídos, assim como pelo desaparecimento das funções levíticas, incluindo a provisão de música para o santuário. De acordo com a hierarquia do Templo, os rabis não possuíam nenhuma autoridade sobre o ritual do santuário. Com a sua destruição, assistiu-se a uma época de florescimento do lado dos rabis. Durante os próximos cinco ou seis séculos, os rabis viriam a tecer uma rede de argumentos legais variados (e nem sempre convincentes) a favor da proibição do uso de todos os instrumentos musicais. Esta exclusão dos instrumentos da adoração judaica permaneceu forte por muitos séculos; apenas após a perda de poder político dos rabis, no século XIX, puderam os instrumentos reaparecer na sinagoga (liberal). Não obstante, a política de exclusão permanece em força onde os rabis ortodoxos detêm maior poder, tal como no actual estado de Israel.
A ausência de instrumentos na sinagoga não modificou o sistema das melodias em si mesmas. Estas, segundo ouvidos contemporâneos, eram pouco dignas do próprio termo "melodia", sendo, como as melodias gregas que foram decifradas, inteiramente do carácter de cantilena; ou seja, a récita dependente do ritmo e sequência das palavras do texto ao invés das notas musicais , influenciada pela estrutura sintática da frase ao invés da forma métrica da melodia.

A Cantilena das Escrituras
Ao invés do coro dos levitas, a sinagoga possuía um líder honorário elegido, que era responsável pela essência do culto da sinagoga, a leitura contínua do Pentateuco em ciclo anual e algumas orações fixas — Baal Koreh ou Baal Keriah, "mestre de leitura". Como medida de contra-formalismo, os rabis proibiram a escrita das orações; todavia, por volta do século II d.C. as orações mais importantes já se encontravam fixas. Todos os textos deveriam ser memorizados pelos mestres de leitura. Estes deverão ter usado artifícios musicais, tais como instrumentos mnemónicos, para a memorização de orações de fé, louvor, graças e súplicas.
As orações mais antigas eram cantadas salmodicamente, de acordo com a estrutura da poesia hebraica, em meios-versos paralelos. Em função da aculturação dos diversos grupos judeus em diferentes áreas, pouco sobreviveu dos modos originais das orações; os presentes tons sefárdicos e orientais originaram provavelmente na Babilónia, no século VIII, e a presente tradição askenazy terá origem nos séculos XIV e XV, na Europa Central. A tradição yemenita, rígida e relativamente estática, é mais antiga que as outras duas mas muito mais austera em estilo e forma: a sua cantilena é plana, a sua salmodia restrita a poucas fórmulas, os seus modos de oração principalmente penitenciais e o seu cântico melismático tanto monótono quanto intrincado.
As orações memorizadas eram cantadas salmodicamente, enquanto as Sagradas Escrituras tinham de ser recitadas duma determinada maneira estipulada pela tradição oral. Recitar a Escritura sem cantar era considerado um sacrilégio.
As regras talmúdicas demonstram que esta cantilena era governada por um corpo de instruções oralmente transmitidas a partir do séc. IV d. C. A partir do século VI um sistema de sinais escritos governou a interpretação das frases, das acentuações das palavras e do subir e baixar da voz; somente algum tempo depois eles viriam a adquirir conotações musicais.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Tehillah em participações especiais

A Escola de Música Tehillah teve participação no Culto em Ação de Graças da "Vinde a Mim" e na feira cultural da Escola Municipal Crispim.




       Concerto Na escola Municipal Crispim